“Só suba no palco se você tiver algo a dizer!” Me disse o mestre. Parei. Pensei. Repensei. Teria eu algo a dizer? Não. Sou apenas um pouco do nada do mundo...
Mas um vazio revolve meu interior Estrepa minhas veias Ensurdece minha mente. E essa angústia atemporal passeia por toda a extensão do meu corpo e entende que ali é sua morada, seu mais que perfeito lugar.
Não quero deixar pra trás o que é importante pra mim!
Não sei dizer como a dor entrou... Talvez por inspiração, no teu cheiro. Ou por teu beijo ardente. Em verdade agora sou sua hospedeira. Perfeita. Eleita. Mais uma para ser sua. Completamente sua. Sei que fui eu quem a convidou. Se a mim faltava alguma coisa, achei? Procurei-a a todo custo... Em teu ar Em tua saliva Em teu fogo E encontrei em tua carne. Viva e fatal. Se agora peço que se vá Não sai, pois diz: Por que me quisestes? Acaso te pedi pra ficar? Não conseguirás me expulsar! Na tentativa de libertação da tua redoma desejada Tento ignorar Finjo esquecer Juro não te amar. E em meu magnífico fracasso Corro em busca de um diamante Que possa tomar lugar no meu peito vazio Para quando eu arrancar Com minhas mãos A dor que é meu próprio coração. Assim nada mais o atingirá.
No olhar que me absorve Procuro-me Tdo posso ver Menos a mim. Em todo tato de toda pela A pele inteira faz-me sentir: Que de carne sou e da carne vim E na carne viva desejo... A mim. Porque não me tenho Preciso de alguém que o faça bem. Em todas as horas. Em qualquer lugar.
Ela dobrou de tamanho em segundos. Diante dele parecia insandecida. Ambos estavam.
Os gritos ensurdecedores nasceram dele pelo álcool e dela pela raiva contida de muitos anos. De repente a culpa é dele mesmo...
Aos sete ela conheceu o que só os adultos fazem. Ele mostrou a ela. Ele e seu irmão. Mas o irmão, diferente dele, se tornou pessoa de bem e expiou seu pecado. Ele permanece no inferno.
Ela não foi violentada. Foi aliciada, seduzida, impelida. Não por força, mas por...astúcia. Argumentos que a excitavam: saber, conhecer o mundo proibido. De repente a culpa é dela mesmo.
Anos a fio e ninguém nunca soube...
Agora, além de tudo, ele continua sem decência. Ela deseja sua eterna ausência. Cansada de aceitar a convivência pacífica, se encheu da força que nunca teve e enfrentou-o quase com as próprias mãos...
Por um tris alguma vida não foi por água abaixo...
Na noite silenciosa ecoavam seus gritos. Dos dois. A cada nova afirmação crescia de um lado o ódio pela falta de respeito do outro e do outro o medo das conseqüências práticas dos atos de um.
Vi o passado ante meus olhos e por um instante pensei que não veria mais futuro algum. Mas ao controlar a raiva e o medo expulsei-o de uma vez. Espero que por todas. Ainda que parte do meu sangue corra nele também, ele não representa mais nada para mim. É coisa sem valor, inútil. Nada.