Minha trajetória no teatro se iniciou aos seis meses de idade quando minha mãe (atriz) e meu pai (músico) me colocaram junto com eles em cena.
Desde sempre a arte faz parte de mim. Meus pais sempre me introduziam neste multicolorido universo. Teoria musical, balé, piano, tambor de crioula, canto, bumba meu boi, violão... Cresci vendo e ouvindo muito. Tudo. Mas também cresci achando que não sabia de fato fazer nada daquilo... Porém sempre experimentando e tentando.
No momento de escolher a profissão pensei em tudo: letras (pela intimidade com o inglês que também aprendi desde cedo), Medicina, Biologia, Educação Física... Na tentativa de conhecer o corpo pensei em várias coisas. Mas sempre terminava por me sentir incapaz de conseguir.
Acabei optando por fazer vestibular para Teatro mesmo, pois a esta altura já trabalhava com Dança e com Circo. Sentia uma espécie de ojeriza ao teatro, que se fundamentava no fato de eu não saber fazer aquilo e ter medo de aprender. Nos semestres letivos acabei dando preferência às cadeiras mais gerais, menos específicas da área, no intuito de escapar de alguma forma deste universo sombrio e incógnito que o teatro significava para mim.
Continuava no curso, apesar do muro de pedra que construíra ao meu redor a fim de me manter distante do meu objeto de tortura. Como se estava nele totalmente inserida? A cada dia em que eu conhecia um pouco mais meu algoz, mais eu me interessava por ele, ainda que fingisse (para mim mesma) hesitar.
Eu via as pessoas fazendo um teatro que eu não gostava de ver e me entediava. Até o dia em que eu vi um teatro que eu não gostei de ver, mas diferente... Ele mexia comigo, revolvia minhas entranhas, me incomodava... Muito. Sentia-me invadida ao assisti-lo, e como não era de invadir a mim mesma, ou seja, não me conhecia porque não buscava a mim, ele me importunava deveras. Eu não gostava, não porque ele me entediava. Eu não gostava porque ele causava revoluções e mim, maiores do que eu podia suportar. Ele me defrontava com um monstro que eu não estava preparada para derrotar: eu mesma.
Então chegou o dia de adentrar no mundo deste fazer. E fiz. Faço. Estou fazendo.
Sigo na busca de mim e da minha forma de fazer teatro. Porque como Grotowski, acredito que: “a arte não é estado da alma ou do homem... é evolução”.
